1527 visitas - Fonte: Tijolaço
Em 2001, durante o “apagão” de Fernando Henrique Cardoso, eu morava numa localidade, o Engenho do Mato, em que não havia água canalizada e o abastecimento dependia de um poço (muito bom, aliás), que por sua vez dependia de energia elétrica.
Era a realidade de todos, pobres ou classe média, na Região Oceânica de Niterói.
E todos tivemos de apelar para corda, balde e força física para ter água, porque sem energia, água não havia.
Um dia, passando de carro em frente à subestação elétrica da Cerj, já privatizada e nomeada agora de Ampla, vi diversos carros parados, e parei também.
Era uma manifestação, espontânea, de cidadãos de classe média, que estacionavam seus carros e exigiam a volta da eletricidade.
O responsável pela subestação, muito nervoso, chamou a polícia e vieram dois “camburões” com policiais militares.
No comando, um capitão, pele clara, corpulento, meio “alemão”, que pediu calma e foi conversar com o sujeito da Cerj, que aos berros falava para tirar dali “aqueles vagabundos”.
E o capitão, diante de todos disse ao homem: olha, então o senhor está me chamando de vagabundo também, porque minha mãe mora em Pendotiba (bairro próximo, dependente de poços também, na época) porque antes de vir para o serviço eu estava carregando balde para ela, que está velha e não tem como carregar água”…
Lembrei da cena hoje ao ver a imagem, na Folha, de dona Mirella Maria Hespanhol, de 57 anos, tirando com baldes água de sua piscina, num bairro da Zona Oeste de São Paulo.
D. Mirella diz ao jornal: ”Passou a eleição e as torneiras secaram. Recebi água por duas horas no último domingo. Mas foi só”.
Ela é, em tese, uma “felizarda”. Tem o seu “volume morto” particular na piscina de sua casa.
Mas há centenas, milhares de outras pessoas que não têm.
Que passaram a depender dos baldes carregados dos caminhões-pipa ou dos lugares que têm água para suprir suas casas.
Na capital, em Campinas, em Itu e em dezenas de outras cidades.
Antes restrita aos mais pobres, a falta d’água, como acontece com as desgraças sociais, já atinge a classe média.
Ninguém culpa o governador Geraldo Alckmin pela seca, que não é obra sua e é grande, intensa e terrível.
E que era comemorada, em fevereiro deste ano, por Aécio Neves, na esperança que uma falta de capacidade de geração de energia elétrica lhe rendesse frutos na eleição.
Como foi a eleição que fez Geral Alckmin agir com uma criminosa imprudência e não decretar medidas de restrição do consumo, ficando nos “bônus” que agora todos vão ganhar, porque não há mais água a consumir normalmente e o racionamento chega pelas torneiras secas.
Uma economia de 10% a mais da água neste período poderia ser a ponte até a volta das chuvas, que vão chegar, hão de chegar.
Mas poderia comprometer os votos de um governante que se esmerou, com a colaboração da imprensa, em ocultar dos paulistanos que o que era ruim seria a única forma de evitar o pior.
E que contou, para isso, com a cumplicidade de uma imprensa que jamais insistiu na gravidade da situação.
Aos que acham que isso não têm importância, que é do jogo político, faço a mesma pergunta que o capitão da PM fez naquele dia ao camarada da concessionária:
-E se fosse a sua mãe que estivesse tendo de carregar baldes?
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