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A tentativa de passar um pano superficial sobre as profundas divisões internas do bolsonarismo ganhou mais um capítulo patético. Eduardo Torres, irmão de criação e articulador político de Michelle Bolsonaro, veio a público tentar relativizar o violento racha familiar. Durante um evento partidário, o pré-candidato a deputado distrital pelo Partido Liberal no Distrito Federal afirmou de maneira mansa que o grave desentendimento público entre sua irmã e o senador Flávio Bolsonaro não passou de um mero momento de "esclarecimentos", classificando a crise como algo inteiramente passageiro para o bando.
A postura moderada de Eduardo Torres no evento, no entanto, contradiz o tom adotado por ele próprio em suas redes sociais e escancara a hipocrisia do discurso unificado. Em manifestações anteriores, o cunhado do ex-presidente condenado havia subido o tom contra os ataques que a ex-primeira-dama recebe de seguidores da própria facção, disparando que sua irmã na verdade "falou pouco diante de tudo" o que suportou nos bastidores. Torres acusou abertamente o entorno dos filhos de Bolsonaro de promover uma campanha de difamação covarde e coordenada, cheia de método, contra Michelle.
O pano de fundo desse barraco familiar envolve uma disputa feroz por influência regional no Nordeste. A ex-primeira-dama usou canais públicos para relatar que foi violentamente maltratada e humilhada por Flávio Bolsonaro durante um telefonema tenso, ocorrido no final de 2025. O estopim da briga foi a revolta da madrasta contra as alianças espúrias que o diretório do PL no Ceará costurou com o tucano Ciro Gomes para a disputa pelo governo daquele estado em 2026, enquanto ela exigia apoio irrestrito ao nome de Eduardo Girão.
A crise telefônica, classificada por Michelle como uma verdadeira "punhalada" pelas costas dada pelo enteado, paralisou os planos eleitorais da legenda. O senador Flávio Bolsonaro, que é o nome ungido pelo pai para disputar a Presidência da República contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, viu-se obrigado a recuar publicamente. Diante do risco de perder o apoio do eleitorado evangélico e feminino, onde o parlamentar ostenta índices catastróficos de rejeição, o senador gravou um vídeo pedindo desculpas e jurando que jamais teve a intenção real de magoar a madrasta.
Nos bastidores do partido, o papel de Eduardo Torres é visto com extrema desconfiança pela ala ligada aos filhos de Bolsonaro. O grupo acusa o irmão de Michelle de operar secretamente para sabotar a candidatura presidencial de Flávio, articulando uma chapa alternativa encabeçada pelo governador paulista Tarcísio de Freitas com a ex-primeira-dama de vice. Torres, que já teve pedidos negados pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para atuar como cuidador oficial do cunhado na prisão domiciliar, tenta equilibrar-se entre blindar a honra da irmã e manter-se fiel ao projeto de poder da extrema direita.
O recuo estratégico do clã, selado com as declarações de que não guardam raiva e que estão focados em derrotar o PT, é puramente eleitoreiro. A própria Michelle recuou em suas redes, publicando que deseja escrever uma história com clareza e respeito, sem competições internas. Contudo, as marcas da desconfiança mútua mostram que o bolsonarismo agoniza em suas próprias intrigas por dinheiro e poder. O episódio deixa claro que a suposta união ideológica desse grupo político desmorona na primeira esquina quando os interesses financeiros de suas subfrentes entram em rota de colisão.
Com informações do DCM
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