78 visitas - Fonte: PlantãoBrasil
O suposto desvio de dinheiro público que penaliza a população trabalhadora e beneficia a elite bolsonarista ganha novos contornos alarmantes. O Instituto Conhecer Brasil, uma ONG sob investigação por desfalques em contratos com a Prefeitura de São Paulo, declarou uma receita de R$ 54 milhões em 2025, um salto escandaloso e injustificável de 170 vezes em comparação aos R$ 306 mil arrecadados apenas três anos antes. O crescimento súbito ocorreu exatamente no período em que a entidade, ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, geria um contrato de R$ 108 milhões para instalar pontos de wi-fi em áreas periféricas da capital paulista, privando a comunidade de serviços essenciais de conectividade enquanto os desvios, em tese, ocorriam.
A organização não se limitou a gerir o contrato milionário com a gestão municipal; ela tentou obter legitimidade perante o governo federal para ampliar seu acesso a verbas públicas, mas foi barrada por rigor técnico. Em fevereiro deste ano, o Instituto Conhecer Brasil apresentou sua demonstração financeira ao Ministério da Justiça como parte de um pedido para receber o certificado de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip). No entanto, um parecer técnico da pasta, emitido em março, identificou inconsistências graves no estatuto social da ONG, incluindo cláusulas que permitiam que os próprios associados fossem beneficiados pelos serviços, violando o princípio de caráter exclusivamente público que rege as Oscips e impedindo a aprovação imediata do pedido.
Os investigadores do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC) focam na suspeita de que parte significativa desse montante bilionário tenha sido desviada para financiar o filme Dark Horse, uma obra que exalta a figura de Jair Bolsonaro. A ligação é direta: Karina Ferreira da Gama é sócia da produtora do longa-metragem. Do total de receita de R$ 54 milhões declarado pela ONG em 2025, R$ 51,9 milhões foram classificados como "parcerias e subvenções governamentais". No mesmo balanço, a entidade reportou despesas de R$ 52 milhões apenas com "serviços de terceiros", um lançamento genérico que, em 2022, já consumia quase 100% da arrecadação e que desperta fortes indícios de lavagem de capitais.
A apuração também expôs a discrepância nos custos de produção do filme e os elos financeiros com o submundo do mercado de capitais bolsonarista. Uma perícia privada contratada pela Go Up Entertainment alegou que o longa custou R$ 75 milhões. No entanto, diálogos obtidos na Operação Compliance Zero revelaram que o senador Flávio Bolsonaro negociou pagamentos de patrocínio com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, que totalizavam US$ 24 milhões, o equivalente a R$ 134 milhões, valor muito superior ao declarado pela produtora. Áudios mostram a preocupação de Flávio com parcelas atrasadas desse patrocínio dias antes de Vorcaro ser preso por fraude bilionária.
O contrato de R$ 108 milhões entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil foi assinado em 2024 e previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi nas regiões mais vulneráveis da cidade, mas a execução do serviço dependeu de subcontratações, o que abriu margem para a emissão de notas fiscais fraudulentas. Entre os documentos sob análise da perícia, estão uma nota de R$ 1,2 milhão emitida para a própria ONG e outra de R$ 2 milhões que foi cancelada logo após a emissão. Para a promotora Marina de Azevedo Pedersolli, as evidências apontam para a ocorrência de crimes licitatórios, organização criminosa, lavagem de dinheiro e desvio efetivo de verbas públicas que deveriam garantir o acesso à informação para os trabalhadores.
Em junho deste ano, a Go Up Entertainment e o Instituto Conhecer Brasil foram alvos de operação da Polícia Civil, mas os representantes das entidades negam que recursos municipais tenham financiado a obra cinematográfica. A investigação segue em segredo de Justiça, mas os fatos já comprovados expõem o modo de operação da extrema direita, que utiliza estruturas supostamente sem fins lucrativos e o aparato do Estado para alimentar sua rede de propaganda ideológica e enriquecimento ilícito, ao mesmo tempo em que sabota as políticas públicas voltadas para as populações periféricas e para os movimentos sociais.
Com informações do DCM
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