7343 visitas - Fonte: Hora do Povo
Durante o último debate entre os candidatos a governador do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, expondo o farisaísmo – e, mais que isso, mentira – de seu adversário, Wilson Witzel, apontou o seu envolvimento com investigados pela Operação Lava Jato.
Em especial, Paes mencionou o apoio do “pastor Everaldo”, presidente do partido de Witzel, o PSC, ex-candidato a presidente da República em 2014 – e oitavo colocado nas eleições para senador, no Rio de Janeiro, no primeiro turno das atuais eleições.
A menção é pertinente. Aqui, acrescentaremos alguns elementos que vão além das eleições para o governo do Rio.
Além de sua atuação na campanha de Witzel, Everaldo Dias Pereira, vulgo “pastor Everaldo”, é também o indivíduo que batizou Jair Bolsonaro em Israel, no dia 12 de maio de 2016 (ver foto acima).
É verdade que, depois, Bolsonaro, que estava no PSC, brigou com Everaldo e saiu do partido. Mas não porque a Lava Jato revelou que Everaldo agasalhou propinas da Odebrecht.
Segundo um vídeo que divulgou na época da briga, Bolsonaro não se conformou com um acordo, realizado por Everaldo, para apoiar o governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB.
Porém, o problema de Bolsonaro não foi que o suposto acordo feito por Everaldo implicava em apoio a alguém do PCdoB, mas, antes disso, o fato do governador do Maranhão ser irmão do então vice-procurador geral eleitoral, Nicolao Dino – que o acusara (aliás, corretamente) de fazer “campanha eleitoral antecipada” e pedira uma investigação sobre suas ações eleitorais antes do tempo.
BATIZADO
No entanto, foi Everaldo quem batizou o atual candidato do PSL, no rio Jordão, em Israel, hoje um ponto turístico naquele país, numa caricatura ridícula – e sacrílega – do batizado de Jesus Cristo por João Batista.
No vídeo da cerimônia, divulgado pelos participantes, pode-se ouvir o diálogo:
EVERALDO: E aí, Bolsonaro, você acredita que Jesus é o filho de Deus?
BOLSONARO: Acredito.
EVERALDO: Você crê que Ele morreu na cruz?
BOLSONARO: Sim.
EVERALDO: Que Ele ressuscitou?
BOLSONARO: Sim.
EVERALDO: Está vivo para todo o sempre?
BOLSONARO: Sim.
EVERALDO: É o salvador da humanidade?
BOLSONARO: Sim.
EVERALDO: Mediante a sua confissão pública, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Em seguida, Everaldo pega Bolsonaro e o mergulha na água (v. foto). Quando Bolsonaro emerge:
EVERALDO: Peso pesado.
Depois de uma sessão de gargalhadas:
BOLSONARO: Obrigado, obrigado.
Não faremos comentários sobre a seriedade disso, além de que o uso da fé alheia com objetivo eleitoreiro já seria repugnante, mas, aqui, os participantes nem se preocupam em disfarçar que nada disso é sério.
FOLHA CORRIDA
Vejamos a ficha do então orientador espiritual de Bolsonaro.
Na Petição 6.697 ao ministro Luiz Edson Fachin, a Procuradoria Geral da República relata que Everaldo Dias Pereira, com Eduardo Cunha e outros quadrilheiros, recebeu “vantagens indevidas” para “garantir o interesse do Grupo Odebrecht em contratos do setor de saneamento de municípios do Rio de Janeiro” (cf. STF, PET 6.697, DJe nº 76/2017, 17/04/2017, p. 105).
Everaldo, assim como Cunha, foi mencionado nos depoimentos dos funcionários da Odebrecht que eram responsáveis por essas obras de saneamento (e por passar a propina): Renato Amaury Medeiros (Termos de Depoimento nos 1, 2 , 3 e 4) e Roberto Cumplido (Termos de Depoimento nos 7 e 8).
Além disso, também como cúmplice de Eduardo Cunha, Everaldo recebeu R$ 6.000.000,00 (seis milhões) da Odebrecht, jamais declarados à Justiça Eleitoral, na campanha eleitoral de 2014, quando foi candidato a presidente (cf. STF, Petição nº 6.831, DJe nº 76/2017, 17/04/2017, p. 195).
O intermediário dessa propina foi Luiz Rogério Ognibeni Vargas, que era operador de Eduardo Cunha, hoje preso em Curitiba, já condenado duas vezes (total de cadeia: 39 anos e quatro meses), respondendo, ainda, a uma floresta de outros processos, por corrupção, lavagem, evasão de divisas e fraude no Fundo de Investimento do FGTS (FI-FGTS).
Luiz Rogério Ognibeni Vargas, tesoureiro nacional do PSC, foi secretário de Administração e Reestruturação do Estado do Rio de Janeiro e presidente da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj), com o apoio de Eduardo Cunha e Everaldo.
Em alguns documentos do Ministério Público, Luiz Rogério Ognibeni Vargas é apontado como operador de Everaldo – e não de Cunha.
O que parece possível – e até provável, devido ao seu cargo de tesoureiro nacional do PSC.
No entanto, no esgoto da corrupção, não é incomum que dois corruptos usem o mesmo operador (nesse caso, pelo menos três corruptos, pois é evidente que Ognibeni também operava para si mesmo). Não existe muita gente nesse ramo, e, até mesmo, o uso dos mesmos operadores facilita alguns trâmites da propina. Aliás, isso se revelou bastante comum nas investigações da Operação Lava Jato.
Nesse caso específico, há outro fator apontando essa possibilidade: tanto Everaldo quanto Cunha eram manipuladores do eleitorado evangélico.
Como Bolsonaro. Não é outra a razão do batizado em Israel. Apenas a tentativa de usar a fé das pessoas para submetê-las aos interesses de Bolsonaro & cia.
Sobre Everaldo, a síntese dos procuradores da força-tarefa da Lava Jato é a seguinte:
“… por intermédio de Eduardo Cunha, o Pastor Everaldo obteve da Odebrecht pagamentos indevidos no total de R$ 6 milhões de reais, através de recursos não contabilizados, a pretexto de campanha eleitoral no ano de 2014” (cf. PGR nº 52189/2017-GTLJ, pp. 2-3).
Renato Amaury Medeiros, o funcionário que passava o dinheiro da Odebrecht para Everaldo, “confirma que participou de reunião com o Pastor Everaldo, bem como foi responsável por intermediar os pagamentos que eram feitos a Luiz Rogério Ognibeni Vargas” (idem).
MOTIVO
Porém, nossos argutos leitores perguntarão: por que a Odebrecht passou R$ 6 milhões para Everaldo, se a sua candidatura a presidente não tinha chance alguma de ser vitoriosa?
A questão foi levantada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, nos interrogatórios de funcionários da Odebrecht.
O dinheiro foi passado a Everaldo para que ele beneficiasse Aécio Neves, então candidato a presidente da República pelo PSDB, nos debates da TV.
Fernando Luiz Ayres da Cunha Santos Reis (Termo de Depoimento nº 8), um dos funcionários da Odebrecht que acertaram a propina, confessou que o dinheiro foi passado para que Everaldo fizesse perguntas que aumentassem o tempo de exposição de Aécio Neves na TV (nas palavras do funcionário, o objetivo era “dar mais visibilidade” para Aécio).
Fernando Reis confirma algo já sabido: a Odebrecht jogava suas fichas – isto é, seu dinheiro – tanto em Dilma quanto em Aécio. Mas preferia Aécio.
As declarações de Fernando Reis foram confirmadas por Renato Amaury de Medeiros (Termo de Depoimento nº 5).
Fernando Reis foi apresentado a Everaldo pelo então deputado Eduardo Cunha. Os R$ 6 milhões para Everaldo não eram para sua campanha, mas para “ajudar Aécio a chegar num segundo turno”.
A versão do funcionário da Odebrecht foi que, no início, não era para isso – mas, diante do fracasso de Everaldo nas pesquisas, passou a ser.
No entanto, é muito difícil achar que a Odebrecht alguma vez considerou Everaldo um candidato viável – ou mesmo útil. O fato é que o dinheiro serviu para subornar Everaldo, com o objetivo de que ele favorecesse Aécio nos debates.
Nas palavras do funcionário da Odebrecht:
“Como a gente se sentia credor por ter contribuído tanto para a campanha dele, nós sugerimos a ele que usasse o debate sempre para perguntar ao candidato Aécio, porque aí daria mais tempo ao Aécio. E, analisando a transcrição do debate do primeiro turno, se nota que ele fez perguntas absolutamente simples e inócuas para que o candidato Aécio pudesse ter tempo na televisão. (…) a ideia nesse momento era ajudar o Aécio a chegar ao segundo turno.”
O último debate do primeiro turno de 2014 – o debate da Globo – confirma inteiramente o que disse o funcionário da Odebrecht.
Everaldo, portanto, recebeu dinheiro da Odebrecht para fraudar um debate – o que é a mesma coisa que embolsar dinheiro para manipular, de modo solerte, o eleitorado.
Isso foi em 2014. O batizado de Bolsonaro foi em 2016.
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