Leitura importante: pautar X ser pautado?

Portal Plantão Brasil
5/11/2018 11:53

Leitura importante: pautar X ser pautado?

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Em recente entrevista ao jornal El País, em meio à conjuntura atual de eleições para o legislativo estadunidense, Angela Davis, cuja experiência militante e capacidade de formulação dispensam comentários, afirmou: "É importante não reagir a cada declaração que Trump faz para mobilizar suas bases e não deixá-lo manobrar a conversa". No fundo, Davis chama atenção para a necessidade de não adotar uma atitude meramente reativa no debate público, o que termina por provocar mais visibilidade e engajamento às lideranças de extrema-direita.







O desafio contra o populismo de direita - um conceito ruim, mas que tem o mérito de chamar a atenção para o papel central do discurso/retórica/comunicação do líder político na construção de uma relação não institucional com a população - é pautar o debate público e não, apenas, ser pautado pelas falas, ameaças e propostas da liderança carismática. Aqui, talvez, resida a maior dificuldade para traçar uma boa estratégia de comunicação política: como fazer o necessário repúdio e enfrentamento às propostas estapafúrdias das lideranças de extrema-direita sem, com isso, aumentar sua visibilidade e uma identidade auto-defensiva de sua base eleitoral?







Em entrevista, também ao El País, o antropólogo Pieiro Leirner, professor da UFSCar e especialista em estratégia militar, alertou para o fato de que a aparente desordem e "bate-cabeça" entre a equipe de Bolsonaro pode ser proposital, uma forma, em suas palavras, de criar: "um ambiente de dissonância cognitiva [no qual uma pessoa apresenta simultaneamente opiniões contraditórias entre si], para em um segundo momento Bolsonaro aparecer com um discurso de restauração da ordem." Bolsonaro se torna, assim, uma figura investida de certo equilíbrio, bom senso e ponderação frente à aparente maluquice daqueles que o rodeiam. Uma estratégia clássica, continua Leirner, de: "operações psicológicas [militares], algo que está colocado em manuais de informação e contrainformação, propaganda de guerra e estratégias de dissuasão do inimigo há muito tempo."



Essa estratégia continua sendo usada, mesmo depois das eleições. Anteontem, por exemplo, Bolsonaro anunciou que fundiria o Ministério da Agricultura com o do Meio Ambiente. Alguns dias antes, um de seus apoiadores, o General Oswaldo Ferreira, disse que em sua época não tinha Ministério Público e Ibama para "encher o saco", dando a entender que esses órgãos deveriam ter suas atividades de fiscalização restringidas. A grita contra a proposta de fusão dos ministérios foi geral, vindo inclusive de setores agronegócio, temerosos com as possíveis retaliações do mercado europeu. Ontem, durante sua primeira entrevista coletiva, evocando uma simulada prudência, Bolsonaro anunciou que declinaria do projeto de desmantelamento do ministério do meio ambiente.



Essa guerra comunicacional é constante. No período eleitoral, quando a candidatura petista começava a falar das propostas econômicas da equipe bolsonarista, seu opositor lançava um vídeo nas redes sociais com alguma "pauta bomba", falando do "kit gay", da mamadeira de piroca e de defesa do incesto. A esquerda, em bloco, tinha que parar o que estava fazendo - denunciar o projeto econômico desastroso de Paulo Guedes - para desmentir a contrainformação da extrema direita. Tática de guerra.



Agora, enquanto o Congresso está prestes a votar a reforma da previdência, o "Escola sem Partido" e a alteração na Lei Anti-Terrorismo, que permite classificar como atividade terrorista qualquer protesto que "pressione o governo", Bolsonaro joga toda a atenção da opinião pública para as nomeações desencontradas de ministros e para propostas malucas, como romper relações diplomáticas com Cuba, mudar a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém e invadir a Venezuela. Ideias que, sabemos, têm grande possibilidade de sofrer oposição dentro das próprias frações da classe dominante - como, por exemplo, os exportadores de proteína animal, especialmente frango, que não pretendem criar problema com os mercados árabes.



O desafio que está posto para nós, do campo progressista, é: como pautar o debate público e não apenas ser pautado pelo bombardeio discursivo da extrema-direta? Como evitar uma atitude meramente reativa na esfera pública, sem, contudo, deixar de critica o que merece repúdio?

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