Os motivos que unem a América Latina contra a seleção de Lionel Messi

Portal Plantão Brasil
15/7/2026 17:00

Os motivos que unem a América Latina contra a seleção de Lionel Messi

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Existe uma velha cascata retórica que teima em reaparecer sempre que a seleção brasileira protagoniza um vexame em Copas do Mundo: a tese de que, por pertencermos ao mesmo continente, deveríamos transferir nossa torcida para a Argentina. Essa ideia não passa de uma estupidez sem tamanho. Entre dezenas de razões evidentes, o principal motivo para rejeitar essa falsa irmandade é que os próprios argentinos jamais se consideraram parte do mesmo continente ou do mesmo povo de seus vizinhos.

O isolamento da Argentina não é um fenômeno brasileiro. Do México ao Chile, cruzando territórios de Colômbia, Peru, Equador e Uruguai, a eliminação da equipe liderada por Lionel Messi tornou-se uma espécie de causa comum e um objetivo compartilhado por quase toda a América Latina. A rejeição massiva aos argentinos é o resultado de uma mistura explosiva de rivalidades históricas latentes, episódios escandalosos de favorecimento de arbitragem, racismo explícito e o indisfarçável complexo de superioridade que a população daquele país nutre em relação aos vizinhos geográficos. No Brasil, embora a rivalidade esportiva tenha sido romantizada por décadas nas transmissões de Galvão Bueno, a realidade fora de campo é marcada por insultos persistentes, onde torcedores brasileiros são chamados de "macaquitos" e associados a canções preconceituosas sobre favelas.

A blindagem em torno da seleção alviceleste ganha contornos de favorecimento político. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, nunca fez questão de esconder sua forte predileção por Lionel Messi. Na atual edição do torneio, após arbitragens polêmicas, chamou atenção a escalação do árbitro estadunidense Ismail Elfath para apitar a partida decisiva contra a Inglaterra. O histórico de Elfath com Messi é no mínimo curioso: desde que o craque migrou para o Inter Miami, em 2023, o juiz comandou quatro partidas do atleta, resultando em quatro vitórias perfeitas e quatro gols do camisa dez.

A Argentina sempre preferiu se enxergar como um enclave europeu exilado na América do Sul. No Brasil, analistas políticos costumavam elogiar a suposta consciência social dos vizinhos, uma ilusão que desmoronou por completo quando o país elegeu o extremista de direita Javier Milei para a presidência. Essa mentalidade de excepcionalismo racial argentino é perfeitamente traduzida em uma frase ultrajante muito repetida na cultura local e proferida pelo ex-presidente Alberto Fernández em 2021: "Os brasileiros vieram da selva, os mexicanos vieram dos índios, e nós, argentinos, viemos dos barcos". Embora Fernández tenha tentado creditar a autoria ao prêmio Nobel Octavio Paz, o escritor mexicano na verdade usava a frase de forma sarcástica para ironizar a arrogância portenha.

Essa fixação com os "barcos" busca exaltar a imigração europeia e apagar a herança negra do país. No período da independência, os negros escravizados e seus descendentes representavam cerca de 15% da população argentina. Esse grupo foi sistematicamente invisibilizado ao longo da história, sendo usado como bucha de canhão em conflitos militares, vítima de negação de identidade e excluído do projeto de embranquecimento nacional registrado na própria Constituição do país. Até hoje, a palavra "negro" é usada em solo argentino como ofensa contra as classes mais empobrecidas. Nem mesmo ícones culturais imensos, como a cantora Mercedes Sosa — descendente do povo originário diaguita —, escapavam de receber o apelido de "La Negra".

Essa cultura de discriminação sistemática ganhou os holofotes internacionais após a Copa América de 2024. Durante a comemoração do título, o jogador Enzo Fernández transmitiu ao vivo, de dentro do ônibus da delegação, seus companheiros cantando uma música xenófoba e transfóbica. A letra atacava a seleção francesa ao afirmar que os atletas jogavam pela França, mas eram originários de Angola, além de proferir insultos preconceituosos contra o atacante Kylian Mbappé. Embora o vídeo tenha gerado indignação global e investigações protocolares no Chelsea, as punições reais foram praticamente inexistentes.

A complacência argentina com o preconceito persiste na atual Copa do Mundo, onde torcedores foram flagrados desferindo ofensas racistas contra um criador de conteúdo digital negro estadunidense. Na televisão argentina, o jornalista Eduardo Feinmann gerou incidente diplomático ao declarar abertamente que "detesta os mexicanos" e que eles têm inveja dos argentinos em todos os aspectos, o que gerou uma resposta firme de repúdio da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum.

Enquanto isso, a imprensa esportiva brasileira e global alimenta uma idolatria quase doentia por Lionel Messi, transformando qualquer toque de lado do atleta em um lance monumental. A relação de Messi com o público latino também carrega suas mágoas, como a polêmica com a camisa do México jogada no chão do vestiário em 2022, que chegou a provocar a fúria do boxeador Saúl "Canelo" Álvarez.

A total ausência de autocrítica na sociedade argentina é respaldada pelo poder público. Como no país vigora a tese negacionista de que não há negros e, portanto, não existiria racismo, as atitudes discriminatórias são tratadas como folclore. O nível de conivência estatal é tão profundo que, após o escândalo da música contra a França, o único membro do governo que ousou sugerir um pedido público de desculpas por parte dos jogadores — o então secretário de Esportes da Argentina — foi demitido sumariamente por Javier Milei, que declarou que nenhuma autoridade diria aos campeões mundiais o que fazer ou falar
Com informações do DCM Por Kiko Nogueira


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