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“O PT conseguiu criar a bolsa crack, a incompetência foi tão grande nesse programa que além de aumentar o número de psicodependentes, criou o bolsa crack, aumentou o preço da pedra de crack.” – João Doria (PSDB), em visita ao Hospital do Campo Limpo, no dia 24 de agosto, segundo o G1
Candidato à prefeitura pelo PSDB, João Doria cumpriu agenda de campanha visitando um hospital da zona sul no dia 24 de agosto. Durante a visita, Doria criticou o programa De Braços Abertos, criado pelo prefeito Fernando Haddad em janeiro de 2014. O programa social é voltado para dependentes químicos da Cracolândia. Seus beneficiários fazem trabalhos de zeladoria em troca de um pagamento de R$ 15 por dia, moram em hotéis da região e recebem três refeições diárias. Como mostra matéria do G1, João Doria classificou o programa como “bolsa crack” e alegou que o número de usuários da droga aumentou após o seu início, assim como o preço da droga.
O Truco Eleições 2016 – projeto de fact-checking da Agência Pública – procurou a assessoria de Doria para solicitar a fonte das afirmações usadas na frase. Segundo o assessor do candidato, as informações são conhecidas e foram amplamente divulgadas na imprensa: “A prefeitura de São Paulo criou um programa chamado De Braços Abertos que dá uma ajuda de custo em dinheiro a usuários de drogas da região da Cracolândia. É esse dinheiro (fartamente noticiado pela imprensa e reconhecido pela própria prefeitura) que João Doria chama de Bolsa Crack. O aumento do preço da pedra de crack também foi objeto de reportagens da imprensa, que atribui o fato a esses recursos pagos aos usuários”.
A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo afirma que não faz nenhum tipo de estudo a respeito do preço médio de drogas ilegais. Portanto, não há dados oficiais sobre o tema, nem da Polícia Militar, nem do Denarc, divisão da Polícia Civil responsável pela prevenção e repressão ao narcotráfico.
Em matéria publicada pela Folha de S.Paulo na época do lançamento do programa, usuários relatam que o preço da pedra de crack de fato subiu no dia do pagamento do primeiro benefício, mas, segundo a mesma notícia, os valores voltaram a cair já no mesmo dia.
Colaboradores da ONG É de Lei, que atua desde 1998 na região da Cracolândia, não identificaram nenhum aumento no preço da droga desde o início do programa: “Não houve aumento específico nesses últimos anos. A questão é que o preço da droga é flutuante, trata-se de uma dinâmica bem específica”, explica Thiago Calil, do núcleo de redução de danos da organização. “As coisas funcionam muito pela troca e pela necessidade do momento. Se está frio, eles trocam uma pedra por uma blusa. Dá para comprar pedras menores até por R$ 2, mas a média é R$ 10. Desde quando começamos a atuar aqui esse sempre foi o preço padrão”, disse.
Quanto ao número de dependentes químicos, especialistas afirmam que não há base para as afirmações de Doria: “Não foi feito nenhum estudo que dê elementos para ele afirmar isso. O único estudo confiável que existe aponta, na verdade, para uma diminuição no número de dependentes químicos na capital”, afirma Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra da Unifesp e diretor do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da universidade.
O estudo ao qual se refere Xavier foi elaborado pela Secretaria Municipal de Saúde em abril deste ano. De acordo com a pesquisa, autodeclaratória, 88% dos beneficiários entrevistados afirmaram ter reduzido o uso de crack e 84,5% disseram estar seguindo tratamento médico.
Há ainda outro estudo, produzido pela Plataforma Brasileira de Política de Drogas, que avalia qualitativamente o programa da prefeitura. Segundo ele, 65% dos beneficiários afirmaram ter reduzido o uso de crack depois de ingressar no De Braços Abertos e mais de 50% disseram ter reduzido o consumo de tabaco e cocaína aspirada.
Diante dos dados, o Truco Eleições 2016 concluiu que a informação apresentada por Doria é falsa, já que não há números ou fontes que a sustentem, e atribuiu à fala a carta “Blefe”.
(Patrícia Figueiredo)
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